- NÃÃOOOO!
- Madian, acorde! Meu pai entra correndo no meu quarto para me acordar
de mais um pesadelo. Ele senta na minha cama e me abraça.
- Acabou, acabou. Ele fala me acalentando em seus braços. Eu choro. Meu
Deus, mais um daqueles pesadelos. Quero esquecer.
- Ah, pai, porque isso não para. Choramingo em seu peito. Minhas
lágrimas molham seu pijama.
- Quer vir dormir comigo, minha querida? Meu pai pergunta
carinhosamente.
- Não, pai, não precisa. Digo fungando e enxugando os olhos com as
costas das mãos.
- Vou voltar a dormir. Pode ficar tranquilo. Meu pai me beija na testa e
segue para a porta.
- Se quiser eu fico aqui com você, minha querida.
- Pode ir, pai. Já estou bem. Digo e volto a me deitar na cama. Ele sai
e bate a porta. São duas da manhã e esse pesadelo de vez em quando volta a me
atormentar. Agarro-me ao edredom e tento voltar a dormir. Amanhã é meu primeiro
dia de aula no curso de medicina da UFPB, o melhor curso de medicina do
nordeste. Estou morando com meu pai há pouco mais de dois meses. Antes eu
morava com minha mãe e meu padrasto em Recife, capital de Pernambuco, estado
vizinho da Paraíba. Eu passei no vestibular de lá também, mas a universidade da
Paraíba é referência em Medicina e em transplantes de órgãos, área que pretendo
me especializar.
O sono chega.
TRIIIMMM. O despertador me acorda. Minha cabeça parece um pouco pesada.
Hora de levantar para ir a aula. Nossa, sou universitária. Não
conheço quase ninguém na cidade, nem no bairro. Tenho só uma amiga que conheci
quando criança, nas férias, a Regina. Moro em João Pessoa, a capital da
Paraíba, no bairro Cabo Branco. Fica no litoral, a praia aqui é linda. O lugar
é bem tranquilo. Eu gosto daqui.
Saio da cama e sigo para o banheiro, paro em frente
ao espelho e me assusto com a figura que está me olhando. Olheiras.
Vou tomar uma ducha fria. Termino o banho, me
enxugo. Pego minha calça jeans, uma blusa baby look branca, calço uma
sapatilha, faço um rabo de cavalo e vou para a cozinha tomar café. Meu pai
está sentado a mesa.
- Bom dia, minha querida. Conseguiu dormir?
- Sim, pai, dormi.
- Bom dia, Maria. Maria trabalha na casa de meu pai há pelo menos dez
anos. É como uma mãezona.
Quer café, Madian?
- Sim, Maria.
- Pai, o senhor pode me deixar na universidade?
- Claro que sim. Coma alguma coisa e iremos.
Meu levanta e vai acabar de se arrumar para ir para
o hospital onde trabalha. Ele é médico oncologista e adora o que faz. Sua
dedicação me inspirou a querer ser médica.
- Vamos, Madian. Meu pai me chama. Termino de escovar os dentes e
saímos.
Meu pai entra no campus da UFPB, é bem grande. Ele
sabe melhor que eu, onde fica o bloco onde passarei o primeiro semestre
do curso. Ele também estudou aqui.
- Tchau, pai. Ele me dá um beijo na testa.
- Tchau, querida.
Sigo por um corredor com várias salas numeradas. A
minha é a 1001, acho que fica no final do corredor. Aqui todos parecem se
conhecer e eu me sinto estranha, sem conhecer ninguém.
- Madian!
- Regina. Ah, finalmente alguém que conheço. Ela vem na minha direção e
me abraça. A Regina passou no vestibular para odontologia e ficará no bloco
vizinho. Conheço a Regina desde criança, quando vinha passar as férias com meu
pai. Ela é ótima, aquela que todos gostam, bem divertida.
- Madian, aqui tem muitos garotos bem gatos. Ela me diz apontando com o
olhar para um grupo de garotos conversando. Não me interesso muito. Quero me
focar no curso, foi para isso que vim morar aqui.
- Regina, preciso encontrar minha sala, depois nos falamos. Digo e saio.
- Ok, Madian.
Sigo pelo corredor e encontro a minha sala, fica
mesmo no final do corredor. No lado da porta há uma lista com os nomes dos
alunos novatos. Procuro meu nome e acho lá no meio da lista. Tem pelo menos uns
trinta alunos nesta turma. Entro na sala e não há ninguém, estão todos pelos
corredores esperando o início da aula. Escolho uma cadeira no canto da frente
da sala e sento. Pego meus fones de ouvido e ligo o celular para ouvir música.
Distraio-me com os adesivos do meu caderno novo. Estou de cabeça baixa quando
vejo alguém passar pro mim e indo sentar-se duas filas atrás da minha. Olho
discretamente para trás e me deparo com um par de olhos me olhando
enigmaticamente. O tempo fica lento. Pareço ter ficado olhando naqueles
olhos por minutos seguidos. Caraca! Meu coração dispara e um frio percorre
minha barriga. Viro-me depressa. Olho ao redor e a sala continua vazia. Sinto
vontade de sair daqui. Devia tê-lo cumprimentado, mas ele também não esboçou
nenhuma reação. De repente todos começam a entrar na sala e logo depois entra
uma professora que se apresenta e fala sobre sua disciplina. Não consigo parar
de pensar nos olhos verdes. Penso em virar-me, mas não tenho coragem. Poxa,
estou nervosa. Ele lembra o Iam Sommer, do The Vampire Diaries. Ele é
simplesmente, lindo! Percebo umas garotas olhando na direção dele. Também se
interessaram. Deve ser daqueles garotos que tem todas as garotas aos seus pés. Sem
chance, Madian. Sou advertida pela minha consciência.
Ficamos sabendo que alguns professores faltaram por
estarem num congresso e temos apenas três aulas. Quando o último professor se
despede, eu me levanto rápido e saio. Ligo para meu pai me pegar e ele me manda
pegar um taxi, pois não poderá sair. Pergunto a uma garota onde posso
pegar um taxi e ela me mostra para onde devo seguir. Saio andando. Um
pouco na frente para um Land Rover prata. o Ian da Paraíba aparece e
entra no carro. Uau, ele é bem alto, tem um corpo atlético e está usando boné.
Parece quase sem cabelos... acho que rasparam seus cabelos por ter passado no
vestibular. Nossa! Nunca vi um rosto tão lindo. Na verdade nunca olhei
diretamente nos olhos de um garoto, sempre fui muito tímida. Nunca me aproximei
de um garoto, essa é a verdade. E depois do que aconteceu... Esqueça,
esqueça. Sacudo a cabeça em negativa. O carro passa na minha frente.
Tive a impressão de que ele olhava para mim. Baixei a cabeça e continuei
andando. Cheguei em casa e fui para meu quarto. Maria me perguntou se já queria
almoçar e falei que vou esperar meu pai. Ligo o computador e vou pesquisar
fotos de Ian Somerhalder. Suspiro. Sou uma boba mesmo. Será que a Regina o
conhece? Bom, amanhã nos veremos na sala de aula. Decido ler um pouco.
- Madian.
- Oi, pai.
Ele entra no meu quarto e senta na minha cama.
- Você está bem, filha? Ele pergunta carinhoso.
- Estou.
- E seu primeiro dia de aula, como foi?
-Foi legal.
Continuarei...
Continuarei...
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